Anísio Franco Celina Bastos Museu Nacional de Arte Antiga/IMC |
Os documentos e objectos descontextualizados, como os vemos em bibliotecas e museus, ajudam a construir uma ideia do que seria a vida dos anos passados; podem até criar novos pontos de vista sobre as obras de arte. Veneramos essas preciosidades como tesouros, mas muitas vezes, fechados nas suas vitrinas, perdem a razão de ser e nem sempre nos revelam a sua primeira função. Por isso, é maravilhoso quando nos deparamos com ambientes completos, inteiros, onde o tempo parece não ter passado. A verdade é que são cada vez mais raros esses lugares.
A rápida evolução do gosto aliada às contingências da sociedade de consumo faz com que, numa velocidade estonteante, tudo mude. Se em alguns países da Europa ainda se encontram interiores que mantêm a sua autenticidade, no nosso país são praticamente inexistentes recheios de casas completamente preservados. Onde estão os riquíssimos e aparatosos interiores barrocos dos palácios do período joanino? Os proventos do Brasil devem ter conduzido à completa reforma e redecoração das grandes casas. A julgar pelas campanhas de obras que quase todas as grandes famílias empreenderam nos edifícios das suas antigas casas podemos afirmar que os seus interiores sofreram iguais reformas ostentatórias. Mas onde estão eles? O fim dos morgadios, as partilhas de família, a constante alteração das modas decorativas e a gradual degradação económica da aristocracia poderão explicar este extraordinário fenómeno de apagamento dessas memórias.
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