Nuno Saldanha Escola Superior de Design /IADE |
A história da decoração dos espaços comerciais, mormente ligados à actividade da Restauração, como cafés, cervejarias, casas de chá e restaurantes (ou nas múltiplas variantes possíveis), continua por fazer, apesar da importância fulcral de que se revestem, para o entendimento das estreitas relações que se estabelecem entre a Arquitectura, o Design, a Cidade e a Sociedade.
Para além do significado intrínseco como espaços de sociabilidade, de cultura, e da História das Ideias, eles constituem-se como espelhos da vida de uma cidade, e de uma época onde, paralelamente, se desenvolve uma História da teoria e das práticas da Arquitectura e/ou do Design, de um modo particularmente interdependente, que não pode ser descurado.
Assim, a decoração destes espaços contribuiu tanto para a definição da sua personalidade, quanto os personagens que os frequentaram. E, por ironia, foram sobretudo estes últimos, que concorreram para a perenidade daqueles locais que, forçados às exigências das transformações do gosto, se revestiam necessariamente de uma natureza efémera. De facto, a sua reconstituição torna-se hoje possível, graças aos testemunhos literários, poéticos e periodicistas, bem como aos registos iconográficos de pintores, gravadores, e também fotógrafos.
Fundada por antigos proprietários da Fábrica Leão, a célebre “Leão d'Ouro”, uma das mais emblemáticas casas comerciais fino-oitocentistas, tem sido recorrentemente citada pela historiografia, mormente pela sua associação ao Naturalismo, o movimento mais marcante da Arte Portuguesa dos finais do século XIX. No entanto, a sua história, com as transformações que levaram a antiga cervejaria a converter-se em Café-Restaurante, sob a perspectiva da história dos interiores, tem sido esquecida, curiosamente ofuscada pelo sucesso do grupo artístico que ali nasceu em 1880, e das obras emblemáticas a que deu origem.
O objectivo deste trabalho é justamente o de tentar recuperar essa memória perdida, nomeadamente através da reconstituição do espólio original, disperso quando do leilão de 1939, data que marca efectivamente o fim da sua prestigiante história, não obstante o espaço se manter em actividade até aos nossos dias.
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