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Raul Lino – A 'Arte Total' na Decoração de Interiores
Maria do Carmo Lino
Museu de S. Roque/SCML
A proposta de Raul Lino no âmbito das artes decorativas foi sem dúvida singular e inovadora, pelo seu contributo valioso no panorama nacional e na valorização que lhe soube incutir, de certo modo inédita, quando contextualizada nas correntes artísticas europeias do início do século XX. Para tal contribuiu a sua formação em Inglaterra e na Alemanha através do contacto com os novos movimentos que viriam revolucionar toda a arte, bem como a criatividade com que soube trabalhar em “material” português, reinterpretando e utilizando várias influências, fossem elas islâmicas, nacionalistas ou na linguagem mais erudita da Secession germano-austríaca.
As artes decorativas assumem na obra de Raul Lino um papel fundamental, quer no desenvolvimento das suas concepções arquitectónicas, no plano de relações entre espaço e equipamento no sentido da criação de uma obra de “Arte total”, quer no entendimento das capacidades decorativas aplicadas à construção ou a objectos propriamente ditos. A harmonia entre a arquitectura, os interiores e a sua decoração, visava “uma arte de viver”, que através de questões de ordem ética e estética, transformavam a casa num local mágico, que iria ao encontro da realização e bem estar de quem a habitava.
A inovação de Raul Lino, no domínio da decoração de interiores, prende-se necessariamente com a sua concepção de espaço interior, espaço sagrado de habitação no mundo. Daí que a disposição e tratamento das várias áreas numa casa, vá ao encontro da procura do conforto e da espiritualidade do homem, reflectindo-se na articulação dos diferentes materiais, na conjugação do mobiliário em harmonia com a pintura mural e azulejaria, e principalmente no espírito que se pretendia incutir a determinado espaço, diferenciando as zonas de acolhimento, trabalho, convívio e recolhimento.
Em desenhos aguarelados que apresentava aos seus clientes, esses mesmos interiores eram imaginados ao mais ínfimo pormenor, da anotação colorida dos reposteiros à jarra de flores na lareira, habitados por personagens imaginárias, num sentido de obra global, no qual os interiores e equipamento são parte orgânica e indissociável do espaço arquitectónico.



COORDENAÇÃO CIENTÍFICA
António Nunes Pereira
Sandra Costa Saldanha



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