António Nunes Pereira Escola Superior de Design/IADE UnidCom/IADE
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A Teoria do Património desenvolveu-se no âmbito de diversos ramos do saber, sobretudo partindo de disciplinas fundadas e/ou consolidadas durante o século XIX, como é o caso da História e da Arqueologia. Mas é indiscutível a importância da prática profissional dos restauradores para esta mesma Teoria do Património. Alguns dos seus conceitos foram decisivamente influenciados pelo trabalho desenvolvido por estes técnicos nessa zona da arquitectura mais directamente próxima da escala humana: os interiores e as artes decorativas.
São dois os aspectos da contribuição dos “interiores” para o património construído: o primeiro enquanto documento histórico, o segundo enquanto metodologia de restauro e de intervenção. São dois aspectos consagrados naquele que podemos considerar do documento inaugural da teoria contemporânea da conservação e da intervenção em património, a Carta da Veneza de 1964.
O valor documental dos “interiores” revela-se insubstituível (não apenas, mas também) numa área de interesse relativamente recente, o da vida quotidiana do passado, testemunho tanto mais precioso enquanto raro. Os “interiores” constituem um testemunho histórico privilegiado, quer no domínio artístico, quer sobretudo no domínio de uma vivência dos espaços, que já não é a nossa de hoje em dia.
A contribuição metodológica dos “interiores” para uma Teoria do Património – e sobretudo no domínio da intervenção – é menos directa, mas não menos importante. Ela resulta de uma aprendizagem com o trabalho dos restauradores nas artes aplicadas. Os restauradores têm como objectivo conservar e manter o objecto artístico na sua autenticidade original, mas também de dignificá-lo através de uma intervenção contemporânea, em particular quando o objecto está visivelmente degradado. As artes aplicadas à arquitectura tiveram assim o papel pioneiro enquanto laboratório experimental de técnicas de implementação de conceitos de restauro não destrutivo e não intrusivo. A posterior transposição destes conceitos e técnicas para a escala da arquitectura passou por arquitectos e conservadores olharem para o trabalho de técnicos como os restauradores. A verdade é que uma fachada de pedra, inicialmente envelhecida e escurecida pela sujidade e pela patina históricas, que surge branca e resplandecente após uma intervenção de limpeza radical, pode suscitar exactamente a mesma polémica que a limpeza e restauro das pinturas da Capela Sistina suscitou, a ponto de ser necessário rescrever a História da Arte e reavaliar o nosso conhecimento acerca de Miguel Ângelo. Também a intervenção num edifício parcialmente destruído coloca o arquitecto responsável perante o mesmo problema com que se debatem os restauradores desde o início da sua actividade: como configurar o preenchimento de uma lacuna, ou seja, como colmatar uma ruptura na unidade conceptual original de um objecto artístico?
Neste primeiro colóquio organizado no IADE dedicado aos interiores esteve em destaque o primeiro dos aspectos da sua contribuição para a Teoria do Património construído, o do testemunho histórico, artístico e vivencial. Fica por abordar o segundo aspecto, relacionado com a contribuição metodológica para a intervenção nesse património. Para tal é necessário saber como se têm restaurado e se restauram actualmente os interiores em Portugal. As limitações de tempo impostas por este modelo de colóquio remetem para um segundo encontro, a realizar num futuro próximo, a análise deste aspecto.
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